Escrita Esquisita

Textos guardados
Bocadinhos do tempo de alguém que se obriga a aprender a gostar da escrita

A bomba

Dar à bomba para fazer a água correr na bica até que se encha o tanque, é motivo de disputa. Mães e avós, não consentem guerras nem se metem ao barulho. Se todos querem, todos podem, então arranjem maneira de se entender, procurem forma de compartir. Mas como é que se decide quem pode mais, quem pode primeiro?

Não vem ao caso o argumento da posse, já que a bomba não é de ninguém e ainda que fosse teria obrigatoriamente serventia cumum. O mesmo se aplica ao baloiço. Só resta um, tem que ser partilhado quer seja com irmãos, amigos, vizinhos ou mesmo com o desinfeliz que resolveu usar a ferramenta nova do pai para fazer melhoramentos e o deixou o outro baloiço sem préstimo algum.

A solução tem que estar para cá de Roma, ou passa-se a manhã toda à batatada e ninguém dá à bomba. É a falar que a gente tem de se entender.

Em acordo corriqueiro, establecem-se duas condições: esperar a vez – não é necessário fazer fila, basta dizer primeiros, segundos e por aí adiante – e não demorar mais que o razoável. O que serve para a bomba também vale para o baloiço. Uns aceitam, outros, com mais queda para a estratégia, finguem aceitar.

A água vai correndo da bica, em golfadas sucessivas, para alagar o tanque, enquanto o baloiço vai e vem numa chiadeira sem descanso.

Então chega a vez de alguém que por pirraça, manda o combinado às urtigas. É a sua vez, está no seu direito e dali não sai, dali ninguém o tira sem antes secar o furo ou desengonçar o baloiço de tanto se abanar. 

É assim na infância, será assim a vida toda. Há de sempre um mete-nojo qualquer que consegue sentir tão grande satisfação em dar à bomba como em impedir que os outros o façam.

À tarde, depois da roupa lavada, todos tomam banho na barrela. 

0