Não me apetece escrever, tomo notas. Irei até onde for capaz.
Primeiro foi a do Moisés. Tinha ele não mais de sete ou oito anos, quando a mãe saiu de casa para ir pagar uma promessa. Eu, naquela idade, conservava ainda a inocência necessária e suficiente para me fazerem acreditar que as pessoas com propósitos piedosos, como era o caso de quem ia a Fátima a pé por devoção, ficavam a salvo de acidentes, guardadas por especial proteção superior. Andava enganada.
Nunca tinha sido amiga do Moisés, antes conhecido e apontado como provocador de brigas e desacatos. Tinha medo dele. Ainda assim levaram-me pela mão até a porta da capela para dar um abraço ao rapaz que estava lá dentro a despedir-se da mãe. Julguei sentir em mim o mesmo desamparo.
Não me tornei amiga do Moisés, depois merecedor de condescendência geral para qualquer falha a coberto da perda. O meu medo transformou-se.
Sem nome, esse sentimento novo começou a maquinar uma estratégia muito ingénua: Se conseguisse partilhar da dor dos outros, poderia ser poupada ao meu próprio sofrimento. Continuei enganada.
As circunstâncias acabaram por abrandar os modos brutos do Moisés. Com o tempo, depois da revolta inicial, deixou-se de rixas e lutas, para se tornar num adulto prematuro. Eu só tinha crescido um pouco e continuei criança aos olhos daquele miúdo a quem todos passaram a considerar como um homenzinho. Do medo nunca nasceu amizade.
Mais umas linhas.
A seguir foi a da Ana Maria. Eu mal conhecia a mãe dela, porque raramente saía à rua. Diziam que sofria da cabeça, diziam que tinha de dormir com a porta trancada, diziam que se devia ter guardado a chave.
Diziam, diziam, diziam e eu não entendia nada do que diziam entre gritos e choro, quando de manhã encontraram o corpo no canal, enterrado no lodo da maré vaza. Continuei por muito tempo sem perceber, não sei mesmo se alguma vez o irei conseguir.
Por mais que perguntasse, ninguém estava disposto a contar-me as coisas como elas são. Ia escutando as meias palavras destinadas a poupar as crianças, tirava as conclusões possíveis: Sofrer da cabeça, não era ter enxaquecas como a D. Elvira, que se fechava às escuras, durante três dias seguidos, para se manter afastada da luz e do ruído. Depois ficava bem, cheia de fome por quase não ter comido durante tanto tempo. Não era a mesma coisa, exceto no escuro e no silêncio.
Estou a sentir-me enjoada, mas vá lá…
Depois, foi a da Rosarinho. Fiquei a saber que tinha tudo para ser feliz: era nova, bonita, inteligente e bondosa. Tinha tudo e teve também uma "coisinha má", não na mama, mas no peito. Ao que a matou, ninguém gostava de chamar pelo nome. A mãe da Rosarinho, bem se podia ter salvo, pensava eu porque assim ouvia dizer.
O marido era médico, conhecia muitos outros médicos no país e no estrangeiro, mas já foi tarde, deram-lhe pouco tempo e ela não quis. Foi ela que não quis... Eu ainda não sabia que era possível não querer.
Nem mais uma palavra. ACABOU!