Escrita Esquisita

Textos guardados
Bocadinhos do tempo de alguém que se obriga a aprender a gostar da escrita

Posso?

Em madrugada escura, quase inverno, desperta ao lado de uma duvidosa dama de pés gelados que sem cerimónia lhe enrodilha os lençois. Estremunhado, demora a reconhecer um certo estafermo que lhe tem andado a morder os calcanhares e com quem não quer conversa. Vira-lhe as costas, aconchega a manta ao pescoço, guarda uma das mãos sob a almofada, a outra entremeada nos joelhos, e vai com a ponta do pé a roçar as asperezas do lençol para tentar devolver-lhe a lisura.

Sopra-lhe a velhaca ao ouvido, Podes?

Tem o sono perdido, espera, pelo menos, recuperar o calor do colchão, mas não há maneira de o conseguir. Tarda a luz, falha o sono, sobram ideias. Pōe-se então a cismar se, a meio caminho entre os setenta e os oitenta, não teria já idade suficiente para reclamar o direito de ser velho.
Aos olhos do mundo não basta ser, há que parecer, por isso espelha no pensamento a pele enrugada, o cabelo ralo e branco, as costas curvadas. Com redobrada atenção, mira tudo o mais que pareça ser sinal inequívoco e à vista de todos.
Não há dúvida, é, sem que no entanto, seja o suficiente. Não chega… Pela figura, já conquistara um título que não confere vantagem alguma. Para poder aspirar a exercer a velhice e desse facto tirar proveito, ter o corpo gasto pelo tempo é escasso.
Vem-lhe depois à ideia, trazer as maleitas a seu favor. Quem sabe, um atestado, a certificar o colesterol, a tensão alta, as cataratas, ou nem que fosse um achaque menor como o catarro, o pudesse tornar velho por direito. Talvez… mas, pensando melhor, tal documento, a existir, só lhe traria problemas. Num acesso de rigor, podiam declarar-lhe falhas de memória, distrações, uma ou outra pequena confusão, daí a ficar impedido de usar a sua própria cabeça era um passo, sabia-o bem. Para ganhar um direito, perdia todos os outros.
Resolve dar a volta para o lado do sentimento, arrastando consigo o cobertor das angústias. Mas no lugar vago, guardado para a solidão, já se tinha aninhado de novo, o raio da bicha, que só de cabeças tinha muitas, (sete, como a de Silvalde) a ensarilhar-lhe a viuvez, com trabalhos passados e presentes, dores nas articulações e outros desgostos variados, que de momento não tem lembrança de quais são, mas por certo não servem o propósito de ser o que quer.

Torna ela, Podes?

Que atrevimento! Nem na cama, um homem pode ter sossego! Teria de pedir autorização? Como coisa que é demasiado grande, deixa de caber na cabeça, escorre para o estômago, faz-se azia e acaba por lhe sair pelos pulmões, em alto e bom som, a ecoar pela casa,

POSSO SER VELHO?

Do quarto ao lado, a mãe que nunca dorme, por se saber origem dos males que o apoquentam, responde num fiozinho de voz,

Ainda não!

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