Se for linda, quase de certeza que é boa
No primeiro dia, tinha muito medo que ela fosse má, assim como era a D.ª Celeste que ralha e bate, por ser feia. Ela põe as meninas dela de castigo, viradas para a parede com os joelhos no chão e manda fazer cópias durante o intervalo, sem lanchar. Quando chama burra e estúpida, fala muito alto, para se ouvir na escola toda e deixar as meninas envergonhadas, ou mesmo a chorar. A D.ª Celeste é má e feia, mas tão feia, que nem as contínuas gostam dela. A minha professora não é assim, fala baixo e com voz rouca por causa da alergia ao pó do giz.
Tinha medo, mas vi logo que era boa. Depois de fazer a chamada, ela mandou guardar a régua de madeira na caixa métrica. Eu ainda não sabia o que era a caixa métrica, mas sabia muito bem o uso que davam à régua. Ficou guardada ao fundo da sala por baixo dos mapas que mostram as terras e do corpo por dentro. Ver aqueles homens esfolados, dava-me medo e o esqueleto ao lado do quadro também. Por cima havia o crucifixo e os retratos de uns senhores muito sérios, sempre a olhar para nós, que assustavam ainda mais. Essas coisas ela não mandou guardar, mas pensei que mesmo assim a minha professora era boa, só por não querer a régua para bater.
Olhei para ela e vi que era linda, parecia uma mãe com bata branca. Nós também temos bata branca, mas não como a dela. As batas das meninas apertam atrás com botões e com um laço e a bata das professoras tem os botões à frente e ao meio. A bata dos rapazes também aperta à frente, mas de lado e nesta escola não há rapazes. Têm uma escola só para eles.
O avô conta que a escola dos rapazes era para todos, quando a fizeram no tempo dele. O pai diz que não se pode deixar torto aquilo que nasceu direito e que está mais que na hora de fazer as coisas mudarem. O avô manda-o falar baixo, porque as paredes têm ouvidos e o pai não se cala e mete-se em trabalhos muito maiores do que a escola, que fazem a mãe ficar aflita. Eles falam e às vezes até discutem, eu presto muita atenção, mas nunca os ouvi dizer nada sobre a maneira como as batas apertam.
A minha é branca, muito branca e sem quadrados como o bibe. Foi a minha avó, quem a fez a bata. Ela sabe costurar e fazer muitas outras coisas, mas não sabe ler. O avô ensinou-a a desenhar o nome para não ter que pôr uma cruz em vez do nome e eu vou ensinar-lhe a escrever o resto. É por isso que ela quer muito que eu vá à escola.
Também tenho outra avó que vive longe com o outro avô. Mandou-me um casaquinho branco para pôr por cima da bata quando estiver frio. Foi ela que o fez, com um novelo de lã, porque sabe tricotar e também sabe ler e escrever. Aprendeu com os professores que iam a casa, depois fez um exame e foi para o colégio. Teve de ir para outra ilha e ficar longe dos pais. A minha escola é já ali, na granja, posso ir e voltar a pé. A essa avó não posso ensinar, mas vou-lhe escrever muitas cartas a contar o que aprendi.
Ainda bem que a minha professora é linda!
