Atrás do balcão está um funcionário com maus modos, roído pelo desejo de carimbar a última declaração, fechar o postigo e mudar de vida. É um bom homem, afável e educado, que vê a sua condição alterada diariamente. O ar carrancudo e as palavras ásperas, são ferramentas de trabalho que sabe usar com mestria das 9 às 6, e ainda pouco passa do meio dia.Torna a telefonar, ninguém atende. Se insistir, desligam o telefone.
À beira da estrada outro homem sentado no lancil, alinha milimetricamente as pontas dos sapatos pelo limite da linha amarela pintada no asfalto. Proibido parar ou estacionar. Vai aguardar pacientemente pela certeza de se querer fazer atropelar por um camião. Sendo uma pessoa metódica, mas indecisa nas escolhas, demora. Escolheram por ele. Sente que vai adormecer.
No centro da sala ficou a cadeira e a senhora de meia idade que está e estará sentada, até que alguém a venha buscar. Minha querida, tem que esperar! Ela suspira, a espaços largos. Entretanto, as mãos trémulas levam os dedos à boca. Os dentes mastigam os dedos para proteger a língua, de outora forma já a teriam arrancado. O camião, seria mais rápido e menos doloroso. Não chora nem esconde, sofre e sangra. Minha querida, isso não! Deixe-me limpar-lhe a boquinha…
Teve tempo para as apreciar durante a viagem de autocarro. Ficaram perfeitas, ninguém diria que não são trabalho de uma profissional, longas, ovais, brilhantes. São um luxo, estas unhas! O funcionário concorda.
Quatro dias e três noites estão para além das forças. Um conhecido apresentador e um desconhecido especialista na matéria, são o bastante, e Quem precisa de mais? A receita é simples, os benefícios garantidos, e um bolinho, tão ranhoso quanto aparentemente inofensivo, é o suficiente. Quatro dias e três noites é muito tempo! Esqueceu-se de urinar, antes de dormir.
Assimilação suspensa, aguarda processamento.