Escrita Esquisita

Textos guardados
Bocadinhos do tempo de alguém que se obriga a aprender a gostar da escrita

Desforra

Assim, comunicado sem mais rodeios, Ficas com ele e ficas bem servida, que eu já não dou conta do recado, maior foi o efeito produzido pela secura de se dizer acabado, do que o abalo de ser entregue a outro, como um embrulho despachado pelo recoveiro.

Por persistência até ao algoz se pode ganhar apego.

É verdade que tinha caído melhor, Quero aproveitar os anos que me restam, ou mais suave ainda, Vou gozar a vida que ainda sobra, no entanto é sabido, esse tipo de tretas não fazem o género. De qualquer forma, pode-se entrever no autoproclamado declínio a tentativa de manter alguma dignidade na despedida e, em simultâneo, a vontade de assegurar a contento de todos a questão do legado.

Ultrapassada a comoção, relevada a falta, passa-se, sem mágoa nem oposição, para as mãos do rapazinho a carvão (tanto ão, ão, ão, só pode ser cinismo) que durante anos e anos assistiu sorridente do alto da sua sóbria moldura, ao espetáculo periódico de desmedido pavor. Músculos retesados, tendões repuxados , respiração suspensa, testa encarquilhada, triste figura. Muito triste, mesmo! É medo, sim. Agora chamem-lhe irracional, aconselhem com quaisquer 10 tostões de psicologia de bolso, e a coberto de um enigmático cheque recebido na infância, digam que é trauma. Seja o que for, não pode ser paralisante, por isso lá se voltava, e volta a contragosto, como quem se entrega à tortura, tendo uma única condição: Ser a primeira à primeira hora.

Requisito assegurado, transação aprovada. Desse dia em diante, cada visita continuaria a correr nas turbulentas águas mansas do costume, não se desse o caso do rapazinho – agora um homem bem parecido, como fazia prever o esboço, e habilitado à função, por contágio dos diplomas junto aos quais o pai o pendurou – ter o péssimo costume de acolher e dispensar com um par de beijos (em caso de dúvida, o problema não está no número).

Conhecemo-nos?

Sim, sim, sou o do retrato!

Ainda que só cumprimento mecanizado e despido de afeto, beijos são muito mais que beijos. São consentimento de proximidade. Vê-los recusados pode fazer doer. 

Chamar-lhe vingança é muito feio, se disser desagravo soa elegante demais e talvez ele nem perceba que antes que se aproxime já tem o braço estendido e a mão pronta. Esta é a minha desforra.

Pode esquadrinhar a fonte à vontade, branquear, furar e até mesmo arrancar, se vir nisso necessidade e estiver para aí virado, que desta boca, beijos não leva nenhum!

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