Escrita Esquisita

Textos guardados
Bocadinhos do tempo de alguém que se obriga a aprender a gostar da escrita

Certeza

Estou sentada ao sol, gosto do sol, mas já se esgotou o tempo. 

"Outro?" (estão a contar)

"Não! Eu consigo fumar o mesmo, duas vezes!" (a cabra da ironia, que não me larga)

"Tens a certeza?"

Continuo sentada ao sol, mas já voltei para dentro.

Disfarço a ausência, fumando mais um cigarro, Não compreendem silêncio, julgam que é sombra. Se as palavras fossem minhas...

"Não, não tenho certezas.

Se era esse o canto que vos atraía,

Deixai-me só nesta melancolia

De baixo, aberto e liso descampado

 

Quero viver, quero morrer, e quero

Que ao fim a soma seja um grande zero

Do tamanho da ardósia... E apagado.

 

Mas são desejos da fisiologia...

Vagas aspirações do dia-a-dia

Duma bilha de barro

Que não vale um cigarro

Que se fuma.

Não, não tenho certezas;

Tenho bruma."

Miguel Torga, Diário V

 ... se, pelo menos os conseguisse convencer  de que, enquanto me recolho, tenho o pensamento, preenchido de poesia. Ficava bem! 

Agora, começo a sentir, não sei bem onde, aquelas agulhadas que soltam a vontade de rir. (Eu a fingir saber de cor magníficos poemas, do princípio ao fim, de carreirinha!)

Ficava mesmo muito bem! (Logo eu, que nem para uma quadra guardo memória Bem, também não é preciso ir tão longe. Como era aquela?...)

Com três letrinhas apenas 

Se escreve a palavra...

Para bom entendedor, dois versos incompletos chegam, e já não consigo conter a gargalhada.

"Sentes-te bem?" 

"Nunca me senti melhor!" (Será que estou a exagerar?)

"Tens a certeza?"

"… certeza(s) não tenho, mas procuro!" 

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