Escrita Esquisita

Textos guardados
Bocadinhos do tempo de alguém que se obriga a aprender a gostar da escrita

Elogio

Redes muito dinâmicas, que se fazem e desfazem a cada passo, sem saber que peixe hão-de pescar. O que hoje é julgado e condenado, amanhã pode ser enaltecido e vice-versa

Assim como quem salta de poldra em poldra só por distração, (talvez nem tão ingénuo seja o divertimento) vou rolando comentários, sem conseguir alcançar margem nenhuma. A nascente era clara, mais do que evidente me pareceu a intenção de louvor. Como é que de um límpido riacho, se faz um imenso lamaçal?

Mas o que é isto?

Chega o turista, vê e gosta, prova e aprova, sente-se bem. Ao partir, resolve dar ao mundo conta do seu agrado, e partilha postal a condizer. Até aqui não há novidade, e podia sair bem na fotografia, não fosse o percalço de lhe juntar a legenda fatal. Bem sei que por estes lados para irritar um conterrâneo, basta que o forasteiro bem intencionado, lhe gabe a terra ao dizer que esta é a "outra" Portuguesa, mas será caso para tanto?

O comentador número um, logo tira da manga a réplica tradicional e sem mais nem porquê, manda inverter a ordem – Que seja "a outra" a nossa Italiana! Ainda vem brando e a medo, mas como na corrida do comentar e asnear, o mal vai de começar, está dado o sinal de partida, para que se soltem as feras. Ele é tudo e mais um queijo, sem propósito nem cabimento algum. Do arrastar das obras à razia das árvores, do João Afonso a caminho de ser apeado ao Soldado arredado no pedestal, ainda cabe o buraco da capela a par com a buraqueira infinda para dar lugar ao estacionamento.

Pelo meio, alguém alerta para a má imagem e triste figura, mas já não há quem se importe com a origem do protesto. O importante é protestar.

Nem a explicação da alergia ao slogan, por remoto braço-de-ferro entre a Propaganda e os locais, consegue mais do que um par de corações.

Segue a rusga para o cinema que já não é, nem há, mais a cor da fachada que desagrada. Entre o presidente abaixo e acima e os varredores a faltar, um desvio para o património que se deixa cair, o mal das licenças mal passadas, os horários da insónia, até os engarrafamentos no canal.  E assim por diante, mais e mais, até fartar, vai crescendo o rol completo do livro de reclamações, em resposta a um elogio.

Mas o que é isto?

Dizem que é assim mesmo, são as redes, o melhor é não ligar. Quase me escorrega o pé em algum seixo limoso.

Digo de mim para mim, se esta é a rede, melhor será rever-lhe os nós.

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