O tempo em que se forma o entendimento é o princípio da escolha das coisas que se querem entender...
Sem altura para mais, o olhar fica nivelado pelo mármore branco. Pupilas dilatadas e olhos salientes, cruzam-se no mesmo plano castigado pelo sal e pela lixívia, onde vem desembocar a madrugada em cabazes e caixas de madeira.
Neste mar de pouca água, boia ainda um suave ondular de vida que se vai apagar no contraste da azáfama. Translúcidos reflexos fazem eco, e por todo lado se ouvem vozes no tom metálico que tem o sabor da maresia.
Do outro lado, mãos a amanhar fazem esguichar o vermelho sangue da guelra, escamam e cortam, escalam a carne firme e tornam a apregoar para atrair narizes atentos que escolhem e desdenham com intenção de melhor regatear o peso ou o preço.
Vale mais o que mais próximo da vida estiver. Entende-se.
Dez réis de gente é também o bastante para compreender a fronteira. É só tomar sentido nas coisas e descobrir pelos sentidos o que elas são.
O sacudir das escamas, o subtil entreabrir das conchas, o deslizar dos tentáculos viscosos, ou o estremeço ligeiro de finas patas e pinças, não são mais que despedida, gelo a derreter.
Depois, a contrariar a quietude do fim, a enguia tem que se perceber de outra forma, – ou então nunca. Toda ela é mistério.
Do que se passa longe da vista, entre águas salobras e salgadas, da geração espontânea, à metamorfose, falam compêndios e manuais. É para isso que servem, se forem procurados.
Mas quando, diante dos olhos, se tenta aprender o serpentear estripado, contorcenedo-se para além da vida, é preciso escolher.
Escolhi não entender.