Escrita Esquisita

Textos guardados
Bocadinhos do tempo de alguém que se obriga a aprender a gostar da escrita

Ilha primeira

O paizinho, já tocado pela loucura que no futuro o irá tomar por completo, continua a manter o aprumo.

Abre a gaveta, escolhe de entre as camisas brancas, as que lhe parecem mais alvas e bem engomadas. Acomoda-as uma a uma na maleta pousada sobre a cama. Diligente, verifica pregas e alisa rugas, ajeita punhos e compõe colarinhos. Aplica na tarefa máximo rigor, até se dar por satisfeito. Junta os fechos, afivela as correias, e sai para ir apanhar o navio.Tem assuntos de grande importância a tratar no continente, convém que se apresente à altura das circunstâncias.

Mal transpõe a porta do quarto, é assaltado pela dúvida – Terei as camisas em ordem?. Pousa de novo a maleta, abre-lhe a tampa e avalia – Esta vai em cima, para não se enrugar! Esta também vai em cima, para não se enrugar! Esta vai em cima… Sai ligeiro rumo ao cais, não vá o navio levantar ferro antes que o consiga alcançar.

A mãezinha, recém acostumada ao sobressalto que no futuro lhe vai consumir os dias, mantém o aprumo.

Tira o casaco de fazenda do armário, aconchega o lenço ao pescoço, compõe os ganchos no cabelo. Deixa em suspenso as tarefas quotidianas, sai lesta pelo emaranhado de vielas que conhece para atalhar caminho. Só refreia o passo ao chegar à rua que desemboca na praia, evitando escorregar nos seixos.

O dia está a acabar, o mar está calmo, os pescadores remendam as redes encostados ao casco dos barcos. Às boas tardes respondem apenas – Boas tardes lhe dê Deus! – e, sem que mais lhes perguntem, logo apontam ao trapiche. 

Lá está ele de olhar perdido nos novelos dispersos de espuma tão branca como as camisas que escolheu para deixar a ilha branca rumo ao continente. De olhar perdido, procura o navio que perdeu.

As gaivotas gritam no céu conversas que os pescadores, por respeito, deixam caladas. Continuam a entralhar em silêncio.

O paizinho volta para casa desolado, ombros caídos, cabeça baixa. Nesta ilha, nenhum navio tornará a atracar. Voltam os dois de mão dada. É a mãezinha, quem traz maleta vazia.

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