Quando voltaram a ficar sozinhos,
não encontraram.
Tiveram de procurar
Espreitaram o interior das gavetas,
e as pregas do sofá,
entre as folhas dos livros lidos,
nos ficheiros sem pasta e no jornal amassado,
que enche a pasta por usar
Exploraram tachos e panelas,
no fundo dos copos de pé alto
(vinho tinto, vinho branco, espumante)
e das chávenas de café
Em cima da cama, debaixo da cama,
remexeram, sacudindo os cobertores e os lençóis,
até soltar o miolo de sumaúma das almofadas
Procuraram arranjar arranjo
para o mecanismo quebrado do despertador
nas molas pasmadas do colchão.
Revistaram os bolsos dos casacos
a bainha da mini saia
e dentro da mala guardada,
na prateleira de cima do guarda fatos,
nas caixas dos sapatos por estrear,
(passos por andar)
Não encontraram,
nem querem crer que se perdeu
em algum lado,
(que já não sabem)
estará guardado
Quando voltaram a ficar sozinhos,
não encontraram
Talvez na rua
ou num jardim onde seja primavera,
para de novo se encontrarem,
terão de namorar.